Apresentamos o ensaio Marcha do coletivo Cia de Foto, o qual se forma por uma série de fotografias unidas na composição de uma “marcha” de trabalhadores que se desloca pelo bairro da Luz sentido à estação. Descrevendo o processo deste ensaio, o texto relata as etapas da pesquisa para assim expor, como movimento final, um choque entre as linguagens do filme e da fotografia definindo esta última como modelo político que desperta, pela temporalidade que suscita, uma possiblidade crítica à situação social que a marcha, constituída pelo fluxo do filme, descreve. A fotografia é uma linguagem comumente maculada pela a do filme que a contém doutrinada pelo sequenciamento. Em uma fotografia os sentidos afloram de uma leitura prospectiva ativada por um deslocamento vertical, vertiginoso, que confunde a ordem dos sentidos imanentes em uma superfície apresentada estática. Uma foto desperta mais que afirma. É passiva em seus extratos densos de história e cultura. Nela o tempo é complexo, ou, como já nos disse o filósofo Bruno Rosa, “se envenena de lento”1. O filme, por sua vez, usa a fotografia em sentido plano, horizontal, menos espesso e mais imediato, colocando-a em uma sequência que fabrica uma narrativa cronológica na qual o fim existe. “Mas a fotografia, essa rompe o estilo constitutivo(é esse o seu espanto); ela é sem futuro(é esse o seu patético, a sua melancolia); nela não existe qualquer protensão enquanto o cinema é protensivo e, a partida, absolutamente nada melancólico(o que é que ele é, então? Pois bem, ele é apenas normal, como a vida). Imóvel, a fotografia reflui da apresentação à retenção”2. Enquanto filme, a Marcha nos trás à condição resignada de uma classe trabalhadora. Mas quando se torna fotografia esta mesma classe representada manifesta ideais de mobilização.
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Partimos da Estação da Luz fotografando o movimento que surge, abruptamente, das chegadas de trens e metrôs que ali descarregam milhares de pessoas no horário do pico, inaugurando a rotina no centro expandido de São Paulo. Imprimimos, na ocasião, o desenho de uma multidão apressada. As feições e os corpos, riscados e indefinidos, apareceram como vestígios da massa que ali desembarcava no espaço, ocupando uma fotografia que fracassava em estancar o movimento.
A Estação da Luz é o meio de um caminho entre os bairros distantes da metrópole e a delimitação que abriga a maioria de seus empregos. Nela caminha apressada a multidão que faz de São Paulo uma cidade imposta por noções de progresso, que, em larga medida, se alinham com o que fora projetado pelos burgueses na construção da sociedade moderna. A própria Luz, a própria estação, é figura facilmente relacionada a um ideal de esclarecimento e luzes; de deslocamento e produção; de ruptura com a tradição para criação de um mundo
em que razão e capital se confundem nos propósitos emancipatórios da classe burguesa ao mesmo tempo que definiram engrenagens de exploração.

- Estação da Luz, São Paulo, 2008
São Paulo expressa e reafirma uma lógica de produção capitalista e de consumo que, muito facilmente, figura um lado de fracasso do ideal moderno. Nos faz lembrar, por este lado, um primeiro Adorno que dizia, “a terra, totalmente esclarecida resplandece sob o signo de uma calamidade triunfal”3. Esta estação simboliza, na prática do dia-a-dia, um projeto que repassa a conta de um enorme prejuízo social que começa no deslocamento. A Luz é onde caminham trabalhadores e daqui propomos uma referência ao termo “marcha popular”, expressão que nos remete a insurreição de uma classe em busca de um espaço democrático, de direitos exercidos e conquistas. Porém na Estação da Luz uma marcha popular vem a significar apenas o sacrifício do trajeto para o trabalho no mais elementar desenrolar da vida cotidiana.
Nossa pesquisa, em um segundo estágio, passou a ter a forma de um filme. Cenas de uma marcha trabalhadora que anda pelo estrato de uma condição ampla e horizontal, que dificilmente ascenderá dessa retidão. A cadência com que cada corpo filmado caminha esconde um imobilismo. Os indivíduos não podem parar de andar e, mesmo andando, não promovem um deslocamento ideal. Um percurso muito curto, sem profundidade de campo, forma o filme da marcha. A jornada dessas pessoas se constitui quase sem sair de um mesmo ponto. Mais à frente, no desenvolvimento destas cenas, a imagem se encontra em sentido reverso, de forma muito discreta as pessoas também andam para trás. O filme lento, de um caminhar atávico, do que poderia ser imaginado como mobilização de classe.
A nossa percepção de marcha equilibra-se no paradoxo entre o dinâmico e o estático, a saber, as contradições de uma dinâmica social que insistimos em chamar de marcha, porém o que vemos é uma quase imobilidade, um desenvolvimento lento do que jamais liberta: todos os dias entre 17h00 e 17h40 caminha na direção da Estação da Luz uma massa, encerrando os expedientes do centro produtivo, e ali criamos um filme com a pretensão de representar o recolhimento de uma força de trabalho.
Em um domínio do imaginário político a definição que primeiro se expressa da palavra marcha é a de indivíduos que se deslocam, pari passus, em direção objetiva, possuindo ideais que oferecem possibilidades de transformação e conquista. Um caminhar que parte e almeja, a cada passo, um novo território, atentos a um sentido ligado a uma estrutura reivindicadora, sinônimo de mobilização popular. Porém o nosso ensaio vai sugeri-la, em certa medida,
esvaziada pelo propósito de uma ordem que a move, unicamente, ao sentido da subsistência.
O que nos mobilizou a este trabalho foi a experiência de ver o estrondoso deslocamento na Estação da Luz, lá onde constituímos fotografias que mostraram, em lenta exposição, o fluxo de pessoas que invadem a estação a cada vez que um trem chega e abre suas portas. Ingenuamente, pensamos que onde há a massa não há indivíduos. Mas no ralentar do tempo apressado desta multidão, a fotografia mostrou que os movimentos convulsivos de São Paulo tem o seu próprio modo de definir rostos e o que vimos foram fluxos mas também algumas máscaras aparecendo entre os volumes e os borrões. Em um segundo momento da pesquisa, fizemos o filme do deslocamento condicionado ao que acontece diariamente na Luz. Chegamos então em um terceiro momento do processo deste ensaio para discutirmos o próprio filme que constitui a marcha.
O nosso referente a partir daqui é o filme feito na Luz no horário em que as pessoas almejam o caminho de casa. A massa de desfoques e tons é figurada
como um conjunto, um mar, de onde é difícil emergir. Porém, menos do que constatar uma unidade como consentimento, como resignação, queremos pensar
em sonhos, em ideais, na força latente de uma classe trabalhadora. Mas teria nessa experiência de onde irromper poesia? O que neste filme nos mobiliza a retrabalhá-lo?
No interior deste deslocamento pode advir questões animadas pela imprevisibilidade. É possível escutar a vida caminhando, companheira, e em pequenos saltos discordar do que ela nos impõe como condição natural. Como dito, o nosso referente passou a ser um filme, aquele da nossa representação de marcha. E um filme nos faz experimentar uma temporalidade específica. A sociedade contemporânea fez de filmes sua natureza. O espaço real é criado e se confunde pelo fluxo de imagens que determinam a própria sociabilidade. O filme de uma marcha se torna, naturalmente, uma marcha, e as pessoas que nela estão, são de lá, daquele ambiente apresentado. Nesta fase do ensaio, onde um filme é o mundo a se discutir, pensamos em fotografia.
Adorno, outrora mais fatalista, nos diz agora que “a realidade oferece muitos outros motivos reais para dela se fugir”4. E neste ponto entramos definitivamente na forma em que apresentamos este ensaio: acreditamos na fotografia. Nossa voz de expressão que decanta sonhos que edificaram a sociedade da luz. A fotografia começa no mundo junto com o projeto de modernidade. Na origem, a câmara escura, sem ainda pensar-se na fixação das imagens, era um objeto epstemológico no qual se fazia uma fotografia que ensinava a ver, a destacar um mundo criado por uma caixa escura dando-lhe a forma da objetividade. E assim contemplava-se paisagens mínimas, específicas, tirava-se do tempo o percebido em um tamanho confortável à observação. A fotografia era a caixa preta, o escuro delimitando um tanto de luz sobre o mundo. No decorrer dos anos, na marcha dos processos, a ciência química foi convidada à uma outra etapa deste projeto que manifestava a ansiedade social européia de fixar uma imagem técnica e deu-se pois, em pleno século XIX, a institucionalização deste invento: forma humana de perceber-se. A fotografia agora fixada nos dava a experiência retida de tempo, prenhe de coisas pulsantes, ansiosas em serem revistas em plena época em que a velocidade nos erguia do chão em prol de um progresso. E nos diz Habermas que “na valorização do transitório, do fugaz, na celebração do dinamismo, se exprime propriamente a nostalgia de um presente imaculado, imóvel. Enquanto movimento que nega a si mesmo, o modernismo é nostalgia da verdadeira presença. Este é, segundo Octavio Paz, ‘o tema secreto dos melhores poetas modernistas’ ”5 .

- Estação da Luz, São Paulo, 2013
A fotografia se imiscui neste “tema secreto”- poesia irrompida da pressa moderna -, e consegue inverter a rota de sentido, de direção, do deslocamento pela vida daquele século onde “predomina a concepção de um tempo dividido num presente fugaz sem um passado regulador que se projeta num futuro sempre inatingível”6. Parente dos propósitos que habitavam a alma de Baudelaire, latente na expressão de Proust, a fotografia tangia o futuro -“região do inesperado, da esperança ”7-, para reter o presente em consciência.
Como fonte de luz que dota a experiência de densidade e espessura, a fotografia subsume-se à presença. Se para o mundo moderno o tempo ganhava ares de um transporte veloz através deste mesmo mundo, a fotografia tirou do tempo o espaço necessário para se compreender a vida e não deixá-la passar com pressa. Em sermos fotógrafos, o passado nos interessa a ponto de darmos as costas para o futuro e, desta forma, experimentamos uma atualidade que tende a ser mais consciente. O tema secreto dos poetas modernos tem uma forma fotográfica: um olhar cauteloso, crítico, ao imediatismo vigente, estrutura que coloca o que passou em contínua revisão.
Devolvemos ao filme da marcha um estado de fotografia. Imprimimos nele com o peso indelével de uma imagem fotográfica uma forma de expressão política. Em meio a massa de corpos, de tons, surgem rostos iluminados que sugerem vozes. As pessoas que ali se destacam, puxam para si a luz que lhes destacam da multidão. Estas fotografias se voltam críticas ao filme, matéria da qual foram geradas, e se rebelam dos significados que lhe deram a condição de surgir. A crítica para a fotografia é congenial, ela nasce no signo da crítica.
O filme gerador deste processo esconde, não é segredo, fotografias que se uniram para sua constituição. Todo filme se organiza em fotografias sucessivas, estas por sua vez, escondem também, imanente, um filme em si. Com potência para ser prospectado por um discurso, o filme contido em uma fotografia é contado por quem a lê, narrado por vozes que dão os sentidos de um debate social. “Com a proximidade de seus passos, o local já se anima; sem fala e sem espirito, sua simples e íntima aproximação já sugere e indica”8. É assim a natureza de uma fotografia.
Filme e fotografia se emparelham neste ensaio quais ambos se opõem e se necessitam ao mesmo tempo. Na história destas linguagens, um dos grandes empreendimentos em torno da fotografia foi o de inibir a inconstância de sua natureza emprestando-se ao projeto do cinema. A cultura do filme deu conta de levá-la, em certa medida, disciplinada ao sentido que o fluxo audiovisual impõe. Mas esse uso não lhe tirou a condição de voz inquieta, revolucionária das ordens. A fotografia é por definição carente de sentidos enquanto um filme pletora. O que falta à fotografia é o que nos inquieta, é o que nos faz políticos, querendo reter da experiência de lê-las, histórias para contar. A fotografia, concreta, é como uma rocha em um rio influenciando o fluxo caudaloso de um progresso. Erodidas pela cultura, que passa e molha em enxurrada, se mantém desviando este trajeto, mesmo que minimamente, e ajuda por fim a definir um percurso histórico. O filme de nossa cultura deposita na gente temporalidades que engendram paisagens, estas são fotografias que surgem com a vontade de se manterem para fora desta mesma história.
Agora como fotografia, a marcha da Luz expressa uma harmonia que não trata sobretudo de um ritmo de permanência mas de vozes individuais unidas por um momento que dura o fôlego de uma causa. Pois tal linguagem que, naturalmente, procura estancar o movimento da vida, tem a força de nos por em marcha reconstituindo o fio de uma continuidade histórica, devolvendo assim a abertura para um tempo consciente, espaço de possibilidades. Ou como bem poderia ter pensado Proust, o que se chama posteridade é a vida póstuma das fotografias.
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Citações:
1. Rosa, Bruno. Elegia caipira p’ra Amélia (do Zé Machado). Poesia não publicada. São Paulo, 2013
2. Barthes, Roland. A Câmara Clara. (trad.) Manuela Torres. Lisboa: Edições 70, 2006. Pg. (100)
3. Adorno, Theodor e Horkheimer, Max. A dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zaar, 1985. Pg.(17)
4. Adorno, Theodor W., Teoria Estética.(trad)Artur Mourão, Lisboa: Edições 70, 2012. Pg(23)
5. Habermas, J. Modernidade – um projeto inacabado. Texto de base ao discurso proferido na entrega do Prêmio Adorno em 11 de setembro de 1980. Trad. Márcio Susuki
6. Fabbrini, Ricardo N. O fim da vanguardas: da modernidade à pós-modernidade. (Versão ampliada de texto originalmente publicado em Cadernos de Pós-Graduação do Instituto de Artes da Unicamp – ano 8 – vol. 8 – nº2, 2006. pag 111-129). Pg.(06)
7. Fabbrini, Ricardo N. O fim da vanguardas: da modernidade à pós-modernidade. (Versão ampliada de texto originalmente publicado em Cadernos de Pós-Graduação do Instituto de Artes da Unicamp – ano 8 – vol. 8 – nº2, 2006. pag 111-129). Pg.(05)
8. Benjamin, W. Charles Baudelaire um lírico no auge do capitalismo.(trad) José Maritns Barbosa, Hemerson Alves Baptista. São Paulo:Brasiliense, 1994(obras Escolhidas: v.III). Pg.(185)



















