Agora
Agora é um trabalho introspectivo, que mergulha em experiências vividas, mas também em demandas ou provocações externas. O fio condutor é muito simples, algo muito elementar à fotografia: a luz, porém, levando-se em conta o paradoxo de que a fotografia também se faz pelo escuro.
Como numa concepção dialética, estressamos a noção da fotografia estabelecida pela luz que, normalmente chamada de natural, aqui aparece como artifício, porque já é filtrada e desenhada pelo ambiente, pela paisagem, pela arquitetura e, claro, reinterpretada pelo tratamento. A fotografia é uma espécie de luz criada em cativeiro. Trata-se aqui de pensar não em um estado puro, mas sua existência quando ela vive numa semiliberdade, num espaço mais amplo, mas que ainda determina formas, comportamentos. Como um cachorro que cresce na cidade e aprende a atravessar a rua, como uma árvore que se desvia dos muros, ou como uma brecha em um telhado que garante uma entrada para um céu que escapa para dentro de casa…
Às vezes, a luz parece dar um aspecto narrativo às imagens. Como uma música em um filme, que anuncia um sentimento, ou um fato que está para ocorrer, ela determina a leitura dos espaços.
Por outro lado, o escuro, longe de representar uma ausência total, permanece em nossas fotografias como informações em repouso, esperando uma atitude que o ative. O escuro é um discurso tácito no qual as palavras mais entram do que saem. Ele é repleto, é o “dentro de casa”, a matéria escura da vida, os olhos fechados, a cor que ambienta a narrativa de um sonho, a noite que sempre dura diferente…
Reagimos às demandas externas por meio de uma atitude romântica que se materializa em uma espécie de performance presente nas cenas. A Cia de Foto vive um tipo de insegurança latente. Nós somos de uma geração que, por algum motivo, precisa, a todo momento, se afirmar como fotógrafos. Não operamos em um regime de completa autoestima, no qual apenas atuaríamos pairando pelo exercício pleno dessa linguagem. Estamos em uma etapa histórica que nos impede de afirmar um sentido completo, pacífico, para existirmos como tal. Nós construímos de forma romântica essas imagens.
E há uma espécie de elegia em Agora, que são as fotografias nas quais aparecem pessoas. São cenas que se afirmam absortas, antes ou além de um sentido de existir. Retratos de uma certa espera, em paisagens urbanas, do sujeito que senta ou se encosta. Um momento do não fazer, do esperar incosciente. Essa parte do trabalho são de pessoas separadas ou postas em um fluxo, também como um artifício de contrapor o sentido natural de uma fotografia em ilustrar uma ação. Elas estão soltas (talvez como a Cia de Foto…) em algum instante anterior a uma possível cena.
Parar é estar inquieto, já que tudo na vida precede um movimento. Quando paramos, é como se estivéssemos contendo um fluxo natural em prol da razão. Na busca de um entendimento, formatamos nossas experiências como um objeto. E essa dinâmica de se colocar, momentaneamente, para fora desse fluxo contínuo termina sendo um gesto de rebeldia. O estático, assim como o escuro, é um dispositivo que opera nos sentidos dinâmicos de uma fotografia.
Percorremos, assim, dois paradoxos da fotografia: o escuro, que também pode ser entendido por um artifício da luz que se recusou a chegar à cena, mas nem por isso deixa de ativar sentidos, e o estático sempre impossível por causa do anacronismo inerente a toda imagem. E é ai, no escuro e na impossibilidade do estático, que acreditamos morar o sentido mais contemporâneo da fotografia.
PS.: Este trabalho será exposto, primeiramente, em Portugal, integrando a seleção do Prêmio BES 2012. Fica o agradecimento a Eduardo Brandão e Ronaldo Entler pela colaboração nessa série, e a Diógenes Moura, curador responsável pelas indicações brasileiras.
Ter e ser
Como cada um de nós era vários, já era muita gente. Utilizamos tudo o que nos aproximava, o mais próximo e o mais distante. Distribuímos hábeis pseudônimos para dissimular. Por que preservamos nossos nomes? Por hábito, exclusivamente por hábito. Para passarmos despercebidos. Para tornar imperceptível, não a nós mesmos, mas o que nos faz agir, experimentar ou pensar. E, finalmente, porque é agradável falar como todo mundo e dizer o sol nasce, quando todo mundo sabe que essa é apenas uma maneira de falar. Não chegar ao ponto em que não se diz mais “eu”, mas ao ponto em que já não tem qualquer importância dizer ou não dizer “eu”. Não somos mais nós mesmos. Cada um reconhecerá os seus. Fomos ajudados, aspirados, multiplicados.
O território é a primeira distância crítica entre dois seres de mesma espécie: marcar suas distâncias. O que é meu é primeiramente minha distância, não possuo se não distâncias. É preciso começar longe, tão longe quanto possível. É que o começo não começa se não entre dois, interlúdio. A distância crítica não é uma medida, é um ritmo. Mas, justamente, o ritmo é tomado num devir que leva consigo as distâncias entre personagens, para fazer delas personagens rítmicos, eles próprios mais ou menos distantes, mais ou menos combináveis. O território é, ele próprio, lugar de passagem.
Os animais de território são prodigiosos, porque constituir um território é quase o nascimento da arte. Quando vemos como um animal marca seu território, todo mundo invoca, sempre, as histórias de glândulas anais, de urina, com as quais eles marcam as fronteiras. O que intervém na marcação é, também, uma série de posturas, por exemplo, se abaixar, se levantar. Uma série de cores, os macacos, por exemplo, as cores das nádegas dos macacos, que eles manifestam na fronteira do território.
Cor, canto, postura, são as três determinações da arte, a cor, as linhas, as posturas animais são, às vezes, verdadeiras linhas. Cor, linha, canto. É a arte em estado puro. O território é o domínio do ter. É curioso que seja no ter, isto é nas propriedades. O território são as propriedades do animal, e sair do território é se aventurar. Há bichos que reconhecem seu cônjuge, o reconhecem no território, mas não fora dele.
Podemos chamar de arte esse devir, essa emergência. O território seria o efeito da arte. O artista, primeiro homem que erige um marco ou faz uma marca. A propriedade, de um grupo individual, decorre disso, mesmo que seja para a guerra e a opressão. A propriedade é primeiro artística, porque a arte é primeiramente cartaz, placa. O expressivo é primeiro em relação ao possessivo, as qualidades expressivas ou matérias de expressão são forçosamente apropriativas e constituem um ter mais profundo que o ser.
A assinatura, o nome próprio, não é marca constituída de um sujeito, é a marca constituinte de um domínio, de uma morada. A assinatura não é a indicação de uma pessoa, é a formação aleatória de um domínio.
Certamente a arte não é privilégio do homem. Improvisar é ir de encontro com o mundo ou confundir-se com ele. E há sempre um coletivo mesmo se se está sozinho.
O rosto é uma política.
* Esse texto é uma colagem de passagens e escritos de Deleuze e Guattari, do livro Mil Platôs, e da entrevista, o Abecedário de Gilles Deleuze. E é uma homenagem a quem tanto nos ensinou esse ano, o Dobras Visuais, e o Icônica.
É um post também, que tem a pretensão de entusiasmar Eduardo Queiroga em suas pesquisas fotográficas.
Bons anos!
Sueño Festa
Mais uma Sueño de La Razón
Além do, sempre valioso, texto de Rubens Fernandes Jr., sobre o trabalho de Tiago Santana,
(“Aliás, uma fotografia aparentemente desorientada,
que por uma articulada transmutação, torna visível
a precária condição humana. Uma coleção de instantâneos
carregados de emoção, que denota a sensibilidade
do fotógrafo e, ao mesmo tempo, registra
a memória do povo e dos seus lugares sagrados.”)
destacamos o trabalho de Camila Rodrigo, do Peru.
Aqui do Brasil, temos ainda Dani Dacorso, Breno Rotatori,Gustavo Pellizzon, Andre Cypriano e Marcos Bonisson, e Ludmila Sackharoff Rotatori.
E o apaixonado trabalho de edição de Fredi Casco, Pablo Corral,Nelson Garrido, Roberto Huarcaya, Ataulfo Perez, Daniel Sosa, Andrea Josch e Luis Weinstein.
Workshop – SESC S.J. dos Campos
Nos meses de outubro e novembro, a convite de Daniela Savastano, realizamos um workshop no Sesc de São José dos Campos.
Aqui, um video produzido durante esse período, como resultado do workshop, com fotos, sons e narração dos próprios alunos.
FOAM
FOAM – WHAT’S NEXT? – CIA DE FOTO
O surgimento da Cia de Foto na fotografia brasileira na última década trouxe discussões que ajudaram a refletir sobre tabus até então intocáveis. Os três fotógrafos do coletivo criaram ética e estética próprias, causando polêmicas infindáveis e, em seguida, um séquito de seguidores no Brasil e no exterior. Deixar de assinar trabalhos individualmente e agregar ao fotodocumentarismo referências à publicidade e ao cinema, rompendo com o compromisso do realismo e expandindo a reportagem para os limites da ficção, foram algumas bandeiras do grupo.
Ainda que no campo da reportagem os temas devam ter primazia em relação ao autor, a Cia de Foto encampou a ideia de que a subjetividade, a percepção de quem relata um fato não pode de forma alguma deixar de “transpirar” na superfície da imagem.
Dessa forma eles criaram com muita propriedade uma estética que dialoga com vários autores da história da fotografia, mas também com a pintura, com um profundo e delicado estudo da luz, como forma de criar metáforas visuais que levam o espectador a experienciar de forma mais eficaz não apenas uma devolução mecânica da aparência do real, mas sim o momento do êxtase fotográfico.
Com muita desenvoltura, o coletivo faz o trânsito do mundo privado do entorno familiar para a esfera pública na série “Caixa de Sapato”.
Ao fotografar sem dogmas e censuras, o trabalho ganha uma poética vigorosa sobre o cotidiano familiar e finda por se transformar num código universal.
Em sua narrativa que se efetiva vigorosamente no formato em vídeo, os ciclos da vida e os laços afetivos que se constroem entre as pessoas que habitam ou passam pelas casas dos autores, surgem como uma força vital de rara beleza.
“Caixa de Sapato” tem a capacidade de nos fazer perceber que a beleza mais compulsiva está enclausurada naquilo que insistimos em não perceber no dia a dia. Que a fotografia do futuro nos ensine, em meio a tantas evoluções tecnológicas, a olhar de forma mais intensa o nosso entorno.
Eder Chiodetto

Abertura!

Abertura

Natureza
Como conclusão da pesquisa incentivada pelo 47º Salão de Arte de Pernambuco, optamos por expressar algumas palavras sobre espaço que nos foi cedido. No caso, uma parede no Museu do Estado de Pernambuco.
Natureza é um ensaio que percorre um paradoxo do efeito produzido por um ambiente aparentemente intocado, com alguns de seus elementos fundamentais: água, luz, comida e morada, agora codificados em fotografias.
A nossa interferência nesse espaço é discreta, pautada pelo desejo que atravessa toda experiência com o gênero histórico da paisagem, que é o de devolver essa natureza a um estado natural originário.
Os objetos que aparecem podem se apagar, como se apaga a própria presença de quem construiu essa cena que acreditamos ver com os próprios olhos. As imagens estabelecem, nesse trabalho, um recorte contemplativo, parecido com aquele olhar imposto à nossa história pelos primeiros viajantes que relataram nossa exuberânica à curiosidade de quem nos dominara.
Toda parede é um agente de distância que anuncia um lugar, definindo-lhe como próprio ou controlado. Entre paredes preserva-se o que é íntimo, delineiam-se cômodos que nada deixam passar além de som e imaginação. Mesmo quando projeta fronteiras, uma parede tem um viés anímico. Esta que nos foi cedida por exemplo, é o verso de nossa obra, cúmplice da ideia de devolvermos ao cômodo dessa exposição a ilusão de natureza. E isso se faz no pequeno instante em que a imagem desencontra-se do objeto, e, virtualmente, se transforma em um fragmento de mundo natural.
É esse lapso entre o que é natural e virtual que propomos com as fotografias de Natureza. Uma fotografia serve para fixar experiências que terminam nos fornecendo uma certa adaptação ao mundo. Porém, no ato de fixar experiências, elas também nos fornecem uma suspensão que devolve movimentos manifestados por recordações, projeções e desejos que reprogramam a atualidade.
Assim, vivemos entre um mundo íntimo, onde tudo é devir, e um outro, quase um contraponto, fornecido por nosso intelcto, que nos permite prever, simular e controlar eventos. Esse último reparte-se em cômodos, onde até o tempo se torna uma medida. Logo o tempo que é a principal contradição da inteligência. Como as fotografias, o tempo subverte os limites de nossas paredes.
Uma fotografia tem, entre suas rebeldias, a capacidade de reconfigurar as intenções que lhe fizeram existir. Por exemplo, nunca parar a vida mesmo quando se apresenta estática. Uma imagem comporta, sempre, subentendidos, e são eles o mérito de um processo artístico: o dispositivo de fazer de uma concepção, algo para além de entendimento exato. As imagens servem a isso e, podemos supor, que até a um pouco mais. Esse Salão é uma medida cultural e a arte é um cômodo.
Construimos cômodos para a nossa sobrevivência. A vida, por exemplo, pode ser entendida por uma organização de imagens interligadas que fazem o mundo funcionar em um frequência entre o que é atual e virtual, entre o que é memória e o que é vontade. E a nossa inteligência age nos cercando em paredes. Para vivermos é preciso delimitar o real em função das nossas necessidades, o que nos faz pensar em uma certa aplicação vital da fotografia em nossa existência. Nós criamos quadros para dominarmos o mundo. A Natureza aqui apresentada, por exemplo, é uma estratégia de domíno para um mundo virtualmente natural, anunciado na parede deste Museu.
Photo Bolsillo!
Saiu nosso livro pela La Fábrica!

Foi editado por Alejandro Castellote, e tem uma construção que passa por muitos de nossos ensaios.
Uma parte que gostamos muito, é do texto de Ronaldo Entler, que surgiu de uma entrevista que fizemos na época.

Separados*



Por que fotografío?

Terminou nosso workshop na Fundação Pedro Meyer.

Eram 10 alunos, a maioria da própria Cidade do Máxico, alguns de Puebla, um pernambucano radicado aqui e uma menina de Cuba.

Durante dois dias, vimos, falamos, discutimos e produzimos fotografias. Uma questão levantada por um deles, que foi adotada como tema de nosso ensaio coletivo, foi: Por que fotografo?.

A partir dessa pergunta e com base no que vimos e discutimos, os alunos trouxeram “respostas” ou sugestões em imagens, que ilustram este post.








