Retiro

Sobre a série Retiro.
“Lugares que viram tempo e tempo que viram lugares” Maurício Lissovsky
A série “Retiro” é composta por dois trabalhos criados em um espaço ficcional que o bairro do Bom Retiro evocou na Cia de Foto. O Bom Retiro foi, no decorrer do século passado, habitado por italianos, depois por portugueses, judeus e árabes. Mais recentemente, houve uma entrada significativa de coreanos, que já dominam boa parte do comércio e da indústria de roupas do bairro, além de paraguaios e bolivianos que vieram responder à necessidade de mão de obra barata para um sistema produtivo peculiar imposto nessa região.
Um lugar com trejeitos que refletem bem a cultura de São Paulo, onde as manifestações relacionais que resultam de uma expressiva mistura migratória é, em parte, o que nos define como país. É um bairro central, mas que se afirma por culturas periféricas. Um lugar mantido por orientais, mas que convive com imigrantes de lugares diversos, com sinagogas judaicas, com restaurantes gregos, com oficinas industriais e com centros culturais expressivos da cidade, como é o caso da Pinacoteca do Estado. Tudo isso que habita o Bom Retiro é determinante em uma extensa rede dedicada à negociação e à formação de sua diversidade. Esse bairro faz pulsar em uma escala concentrada uma amostra radical do que vem a ser São Paulo: um estrondoso centro urbano demarcado nessa região do mundo.
Desse bairro, ficamos com a palavra “Retiro”. Nosso trabalho consiste de uma série de 13 fotos que formam um políptico simétrico e ocupa uma área que espelha a projeção do vídeo “Marcha”, segunda parte do trabalho, no outro extremo da sala de exposição. Na construção dessas fotos, percorremos o Arquivo Histórico Judaico Brasileiro, de onde uma história foi elaborada por uma entrada virtual, estratificada. A nossa caminhada fotográfica percorreu o Bom Retiro por uma narrativa construída através do apagamento de imagens antigas. São passagens de um arquivo que remontam a um tempo inédito desse lugar. Os referentes de nossas fotos são outras fotos do século passado, dos anos 20 até os anos 80.
Já o vídeo “Marcha” entra na mostra trazendo uma questão mais política. Trata-se de uma marcha popular que todos os dias, entre 17h00 e 17h40, parte daquele bairro na direção das casas das pessoas. É a fotografia de um deslocamento massivo que deixa essa zona de trabalho, caminhando numa infinita jornada que encerra os expedientes.
Nesta série, a ideia de “marcha popular” contradiz um certo exercício de nossa esquerda política, que tende a tomá-la como instrumento de revolução social. O movimento em nosso filme é de uma massa proletária que anda pelo estrato de uma condição ampla e horizontal, e que dificilmente ascenderá dessa retidão. Para mostrar isso, o vídeo “Marcha” foi feito em 60 quadros por segundo e conformado em 24 quadros por segundo, resultando assim numa câmera bem lenta. Usamos também uma lente com 2.400 mm, para representar melhor o fato de que as pessoas se deslocam muito pouco desse lugar. Sem profundidade de campo, o que se forma nessa imagem é uma percurso muito curto, um caminho mínimo de trânsito. A jornada dessas pessoas se constitui quase sem sair de um mesmo ponto. E, indo um pouco além no retrato dessa marcha, colocamos, em alguns momentos, a imagem em reverso. De forma muito discreta as pessoas também andam para trás.
São esses dois os espaços extraídos do Bom Retiro, que ambientaram nossas jornadas virtuais por esse bairro tão cheio de entradas na cultura de nossa cidade.
Nessa quinta, dia 11, às 20h:30, haverá uma conversa entre os artista e o curador no Centro da Cultura Judaica:

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