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Ter e ser

by ciadefoto on December 23rd, 2011

Como cada um de nós era vários, já era muita gente. Utilizamos tudo o que nos aproximava, o mais próximo e o mais distante. Distribuímos hábeis pseudônimos para dissimular. Por que preservamos nossos nomes? Por hábito, exclusivamente por hábito. Para passarmos despercebidos. Para tornar imperceptível, não a nós mesmos, mas o que nos faz agir, experimentar ou pensar. E, finalmente, porque é agradável falar como todo mundo e dizer o sol nasce, quando todo mundo sabe que essa é apenas uma maneira de falar. Não chegar ao ponto em que não se diz mais “eu”, mas ao ponto em que já não tem qualquer importância dizer ou não dizer “eu”. Não somos mais nós mesmos. Cada um reconhecerá os seus. Fomos ajudados, aspirados, multiplicados.

O território é a primeira distância crítica entre dois seres de mesma espécie: marcar suas distâncias. O que é meu é primeiramente minha distância, não possuo se não distâncias. É preciso começar longe, tão longe quanto possível. É que o começo não começa se não entre dois, interlúdio. A distância crítica não é uma medida, é um ritmo. Mas, justamente, o ritmo é tomado num devir que leva consigo as distâncias entre personagens, para fazer delas personagens rítmicos, eles próprios mais ou menos distantes, mais ou menos combináveis. O território é, ele próprio, lugar de passagem.
Os animais de território são prodigiosos, porque constituir um território é quase o nascimento da arte. Quando vemos como um animal marca seu território, todo mundo invoca, sempre, as histórias de glândulas anais, de urina, com as quais eles marcam as fronteiras. O que intervém na marcação é, também, uma série de posturas, por exemplo, se abaixar, se levantar. Uma série de cores, os macacos, por exemplo, as cores das nádegas dos macacos, que eles manifestam na fronteira do território.
Cor, canto, postura, são as três determinações da arte, a cor, as linhas, as posturas animais são, às vezes, verdadeiras linhas. Cor, linha, canto. É a arte em estado puro. O território é o domínio do ter. É curioso que seja no ter, isto é nas propriedades. O território são as propriedades do animal, e sair do território é se aventurar. Há bichos que reconhecem seu cônjuge, o reconhecem no território, mas não fora dele.
Podemos chamar de arte esse devir, essa emergência. O território seria o efeito da arte. O artista, primeiro homem que erige um marco ou faz uma marca. A propriedade, de um grupo individual, decorre disso, mesmo que seja para a guerra e a opressão. A propriedade é primeiro artística, porque a arte é primeiramente cartaz, placa. O expressivo é primeiro em relação ao possessivo, as qualidades expressivas ou matérias de expressão são forçosamente apropriativas e constituem um ter mais profundo que o ser.
A assinatura, o nome próprio, não é marca constituída de um sujeito, é a marca constituinte de um domínio, de uma morada. A assinatura não é a indicação de uma pessoa, é a formação aleatória de um domínio.
Certamente a arte não é privilégio do homem. Improvisar é ir de encontro com o mundo ou confundir-se com ele. E há sempre um coletivo mesmo se se está sozinho.
O rosto é uma política.

* Esse texto é uma colagem de passagens e escritos de Deleuze e Guattari, do livro Mil Platôs, e da entrevista, o Abecedário de Gilles Deleuze. E é uma homenagem a quem tanto nos ensinou esse ano, o Dobras Visuais, e o Icônica.
É um post também, que tem a pretensão de entusiasmar Eduardo Queiroga em suas pesquisas fotográficas.

Bons anos!

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One Comment
  1. francisca permalink

    este post é incrível! Obrigado pela informação! Francisca@nossafamiliaalvares.com.br

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