Acompanhamos a ação do fotógrafo durante uma partida de futebol. Sobre o acervo de fotos ali gerado, extraímos esse documentário com duração em torno de 90 minutos, o tempo de jogo, a ser exibido no formato de vídeo-instalação. Esse jogo aconteceu no Estádio do Pacaembú, em São Paulo, no dia 23 de maio de 2012, na disputa entre Vasco da Gama e Corinthians pela ascensão na Libertadores. 1X0 Corinthians, gol marcado nos minutos que decidiam o final da partida.
Um fotógrafo especializado na cobertura desse tipo de evento, a nosso pedido, registrou o jogo, fazendo uso de sua prática de disparar sua máquina em busca de uma sequência, sempre a dez frames por segundo. Simultaneamente, captamos um audio em seis diferentes pontos do estádio, e assim foi composta uma paisagem sonora integral do espaço. Através do som, é possível a impressão de se estar presente em campo. Já à imagem, deixamos à ela, somente o que se mostra do jogo pelo movimento do obturador da câmera. A experiência de se ver no regime imposto pelo dispositivo fotográfico.
Um estádio de futebol concentra-se na operação privilegiada da visão. Milhares de pessoas se aglomeram nas estruturas para mirarem, de diferentes distâncias e perspectivas, o desenrolar da partida. A torcida fixa seu olhar e persegue, com a alma, a bola que ativa os vinte dois protagonistas do jogo. O fotógrafo, que constrói a performance escultórica dos jogadores, parece trabalhar, inevitavelmente, no flagrante da disputa por essa bola. Ela que merece repousar nas redes que determinam um gol.
Nesse documentário, propomos uma entrada nessa partida de futebol onde o som captado e, mais, as imagens do fotógrafo em sua ação condicionada na sua experiência rotineira, constroem uma relação estressada de expectação. Pois nos valemos da mediação já instituída em torno desse evento tão comum em nossa cultura, apresentando-o sob o choque de duas linguagens: o som do jogo e as imagens geradas pelo fotógrafo. O atrito entre essas duas dimensões – entre a fiel paisagem sonora e a série comedida de fotos – pretende desestabilizar o espectador acostumado; ora imantado pelo som, ora disperso pelas imagens.
Portanto, no momento em que o som orienta a nossa percepção, as imagens subitamente aparecem no regime determinado pelo dispositivo fotográfico que elegeu momentos desta partida; que criou, bem como suprimiu, pois elegeu tanto quanto renegou. Ficaram as distâncias, os espaços vazios entre as fotografias. Tipo esse, de intervalo difícil, intransponível, formado na ausência de imagens, que assim pretende impedir uma expectação passiva que possa se acalmar em prever o que adiante se mostraria. O fluxo audiovisual está estragado pelos ritmos incompatíveis entre o que se escuta e o que está imposto a ver.
Entre sentir, através do som construído, o que é um estádio de futebol lotado, e a necessidade de vê-lo, de ver o jogo, o gol, se estabelece a tensão que esse documentário propõe: uma atmosfera sonora precisa, mimética, em contrapartida à observação específica do fotógrafo que buscou potencializar uma experiência sensível. Um ambiente sonoro previsível, contrariado pelo fluxo imagético que teve a pretensão de fixar, através de atos resumidos, instantes capazes de criar histórias. Se um espectador de generosa paciência, permaneça assistindo o que aqui propomos, saiba que já bem perto do fim haverá um gol, mas apenas invisível.
CIA DE FOTO, Guab, Marcelo Pedroso
ps.: esse documentário tem a ajuda de Caio Guatelli, (grande) profissional especializado na cobertura de eventos esportivos, que se tornou personagem do filme. As fotos são a mostra de seu trabalho. Vale ainda o agradecimento ao curador e parceiro Eder Chiodetto que sempre aposta no que a Cia de Foto tem a experimentar!
Golaço! Alegria ver o esporte/futebol nestas experiências contemporâneas. Percebemos pouco espaço para fotografias de esportes em geral nas mesas de ideias.
chapado o projeto, rapazeada.
beijo procês
pio, que bom! vou olhar e ouvir com a maior dedicação!