Pais Interior
A paisagem que habita um “País Interior”
“A imagem congelada no monitor de vídeo é um cadáver insepulto. É tanto o fim da história como a história sem fim. É preciso que a fotografia esteja de algum modo “fora do filme”, é preciso que haja aqui uma distância, pois toda vez que a fotografia ganha corpo, o cinema revigora o estatuto da própria transparência. Há uma disjunção fatal entre o que se olha e o que se vê, entre o que se vê e o que se diz, e entre o que se lembra e o que se mostra. Tudo expira.” Maurício Lissovsky
País Interior, 2012, é um ensaio com fotografias que habitam o filme Terra em Transe, 1967, dirigido por Glauber Rocha. Na busca por uma parte mínima, um ponto fundamental na imagem dessa obra do Cinema Novo, fotografamos os próprios fotogramas, constituindo um fragmento essencial, irredutível, no qual uma outra história se dispara. Há fotografias inéditas dentro desse filme possíveis de encontrar quando se percebe uma espécie de defasagem criada entre a imagem e o texto. Em um território possível estabelecido na separação entre o que se apreende pelo visível e pelo dito, encontramos um núcleo atualizável, ulterior, que se porta como unidade essencial.
Existe um encontro explosivo em que a expressão dos corpos e a entonação das falas que enredam o filme não se dissolvem em seu fluxo audiovisual, e permanecem separadas, faiscando em uma espécie de atração e reação. E nessa coexistência atribulada entre a imagem e o texto, na tensão entre as matérias que se tocam e se distanciam descompassadas pela direção do filme, pulsa, lá por dentro, uma paisagem. O Terra em Transe foi construído assim, gerando atritos entre as dimensões que formam sua cinematografia, afim de tirar o conforto e dotar a experiência de assisti-lo com efeitos políticos, um ruído estético dissonante entre o visível e o apreensível no texto de um poema expressado, e filmado.
A imagem de um filme é sempre menos densa que as fotografias que lhe constituem, entidades que despertam a multiplicidade das interpretações; até se permitem ordenar mas nem por isso se esgotam. Estas fotografias são um fazer efeito, um incontido, virgens em reunir experiências que se estreitarão como conceito, promissoras ao se expandirem como causa de incertezas. Por lá está sempre o inédito assim como o já dito, o visível e também o que se imiscui. A desconexão entre imagem e texto, posta no Terra em Transe, engendra uma paisagem para novas fotografias surgirem com a vontade de se manterem para fora dessa mesma história.
Interrompemos o movimento e tiramos do filme seu estado de cinema. Das cenas saíram as falas, e, por entre esses gestos emudecidos, abriu-se o caminho para as fotografias inéditas que reencenam partes ainda não previstas nessa história. Suprimindo o movimento e as palavras, restaram os atos desencarnados expelindo garantias de recomeços. Abriu-se pois, a travessia para o interior de onde emerge nosso ensaio. A vida dada a essas fotografias é a vitória do tempo, que, como sujeito, mora nesse filme e chega à gente expirando um futuro. Já eram fotografias antes mesmo de iniciar-se o filme que constituíram sem perderem a condição asceta de unidade, e sobreviveram em um mundo que já não precisa respeitar imagem.

Fantástica essa idéia. Sempre tive muita curiosidade em ‘separar’ a fotografia do filme; ou melhor, como se compõe a foto + sons (diálogos) + a filmagem (decupagem, montagem etc). Principalmente de um filme em que a câmara não pára, as imagens têm uma urgência que, às vezes, deixa o texto para trás.